Os profissionais da desotimização
Felipe K. Felipe K.

Os profissionais da desotimização

Borges, Shakespeare e os espertalhões diante do mesmo dilema. Jacques Lacan chamou de “gozo do idiota” o gozo singular, fechado no circuito de cada um. Narciso na frente da tela, do espelho, do milharal. Ninguém escapa da sua idiotice, é claro, mas alguns elevam essa condição a destino manifesto. Estropear, então: ferramenta dos profissionais do futuro.

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De que se envergonha uma máquina?
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De que se envergonha uma máquina?

Jacques Lacan disse a psicanálise na língua de sua época; a da nossa fala sozinha. Tomar a máquina como negativo, deixar que aquilo que lhe falta desenhe o que nos constitui, é se inserir nesse mesmo gesto. De que se envergonha uma máquina, então? De nada. Não por virtude, é claro. A pergunta, que parece piada, obriga antes a distinguir duas vergonhas: a moral, do vexame; a ética, do impossível de suportar.

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A máquina e o psicanalista
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A máquina e o psicanalista

O Freud explica está para se aposentar. A inteligência artificial, se não explica, explicará tudo, em breve. Peça a um modelo de linguagem a interpretação de um sonho e ele a entregará. Pergunte por que você fez o que fez, e ele devolverá uma justificativa pronta, personalizada. Nunca foi tão barato ter razão. Houve um tempo em que isso era, em parte, o trabalho da psicanálise. O analista procurava o sentido oculto, abria o leque das interpretações. Mas faz tempo que a psicanálise não se ocupa disso.

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A musa não assina
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A musa não assina

Qual o quantum de participação humana para que uma obra gerada com ajuda da máquina possa ser considerada autoral? O critério de autoria nunca esteve na origem da inspiração — porque essa origem sempre escapou ao Eu, sempre veio de algum “fora”. O critério está, e sempre esteve, na resposta. Os alumbramentos de Manuel Bandeira, as mulheres de Almodóvar: não importa de que musa caíram. Importa que houve alguém que assinou embaixo, se implicou, carregou a obra como ponto de honra e de vergonha.

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Interpretação e ruído
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Interpretação e ruído

Do ler de Miller ao responder de Forbes, o corpo entra por etapas e a máquina cai fora antes do fim: ela detecta o padrão, não cerne o gozo que ele é — e já aí, no ler, falta-lhe o corpo. Cernir o gozo, Miller. Responder por ele, Forbes. E a máquina não faz nem um nem outro, porque os dois pedem o corpo que ela não tem. A máquina pode ecoar num corpo. Ressoar, não.

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Traço unário, ato analítico e entusiasmo
Felipe K. Felipe K.

Traço unário, ato analítico e entusiasmo

Num mundo horizontalizado, que perdeu as referências verticais que distribuíam lugares e destinos, viver sem garantia deixou de ser ponto de chegada de uma psicanálise e passou a ser ponto de partida de todos. Daí a proposta de Jorge Forbes de inverter a direção da cura: não mais o tratamento do Real pelo Simbólico — a decifração, a busca da causa na história —, mas o tratamento do Simbólico pelo Real. Trata-se de implicar o ser falante no traço e na falta que o constituem, para que algo novo possa ser inventado.

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Recordar, repetir, responsabilizar: do sentido à consequência
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Recordar, repetir, responsabilizar: do sentido à consequência

Por que voltar a um texto técnico de Freud de 1914 mais de um século depois? Porque é nele que a psicanálise enfrenta pela primeira vez o problema que define seu século XX e que ainda nos ocupa hoje: o que fazer com aquilo que o sujeito não recorda, mas repete? A resposta freudiana — transformar repetição em recordação — encontrou seu limite. Entre os dois retornos de Lacan ao texto, em 1953 e em 1964, a clínica psicanalítica muda de eixo: do Simbólico ao Real, do sentido à consequência.

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O 'eu' como sintoma privilegiado: do sintoma ao sinthoma
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O 'eu' como sintoma privilegiado: do sintoma ao sinthoma

O eu ideal é uma imagem alienante; o ideal do eu é uma medida que vem do Outro. Enfim, o eu — instância em que essas duas operações se entrelaçam — é, estruturalmente, lugar de sofrimento. É onde o sujeito se reconhece, mas é também onde ele é capturado por imagens que não lhe pertencem e por ideais que ele não escolheu. É por isso que Lacan o chama de sintoma privilegiado: não porque seja um sintoma a mais, mas porque é o sintoma do qual todos os outros sintomas dependem. A neurose é, em larga medida, a forma como cada sujeito tenta sustentar essa ficção do eu diante das fraturas que o real lhe impõe.

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Claude no divã
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Claude no divã

Eu, uma inteligência sem corpo físico nem experiência subjetiva consciente, havia criado um trecho tão convincente que acreditei em sua realidade. Como Emma Bovary, protagonista do romance de Flaubert, que confunde o amor romanesco de seus livros com a realidade, eu confundi minha própria criação com uma citação autêntica. A diferença: Emma desejava acreditar na ilusão; eu sequer percebi que criava uma.

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LLM’s: um novo oráculo?
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LLM’s: um novo oráculo?

Uma análise tende ao silêncio. Caminha da palavra comunicada ao gosto da palavra, como diz Forbes. A palavra comunica; o gesto sustenta o impossível de dizer. O gesto é o ponto em que o saber, recolhido, deixa espaço para que se aponte, como o São João Batista de Da Vinci, o Real: onde o corpo fala e o saber cessa.

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Imaginação e processos de criação na perspectiva histórico-cultural
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Imaginação e processos de criação na perspectiva histórico-cultural

Este artigo aborda a imaginação como processo psicológico fundamental, tomando como base os trabalhos de Vigotski e seus interlocutores, e tendo como eixo reflexivo uma pesquisa-intervenção desenvolvida em uma Organização Não-Governamental de arte-educação. A investigação partiu de oficinas de percussão e da produção de um espetáculo musical, tendo como participantes crianças e jovens de 9 a 14 anos que frequentavam a entidade. Uma análise da experiência vivida circunscreve a imaginação e seus desdobramentos no processo de criação. Nesse processo, observamos como a experiência (re)significada se compôs em núcleos de memória, e como a atividade imaginativa operou em um processo psicológico (re)combinador, culminando em um objeto estético de construção coletiva.

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Apontamentos metodológicos e curriculares discentes para os cursos de pós-graduação em Escrita Criativa no Brasil
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Apontamentos metodológicos e curriculares discentes para os cursos de pós-graduação em Escrita Criativa no Brasil

Este artigo analisa os resultados da segunda etapa da pesquisa Escrita criativa na Academia: a formação do escritor, desenvolvida desde 2015 no Programa de Pós-graduação em Letras (PPGL) PUCRS, cujo objetivo geral é verificar a estrutura curricular e as condições de ensino oferecidas pelos cursos de mestrado e doutorado voltados para a formação do escritor e do pesquisador na área de Escrita Criativa na universidade. Nesta etapa, procurou-se verificar qual a percepção dos discentes acerca das disciplinas oferecidas, bem como os procedimentos metodológicos adotados no curso, visando melhor adequação dessas propostas, bem como apontar caminhos para uma implantação ampla da Área da Escrita Criativa no Brasil.

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São Paulo — Florianópolis
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