Como recusar um elogio
O filósofo Jean-Paul Sartre almoçava em um restaurante em Montparnasse quando recebeu a notícia de que havia ganho o Prêmio Nobel de Literatura. O ano era de 1964, auge da Guerra Fria. Sartre, conta-se, pouco reagiu à notícia, e, mais tarde naquele mesmo dia, recusou a honraria.
Em 2024, os chefs italianos Benedetto Rullo, Lorenzo Stefanini e Stefano Terigi pediram para que a estrela Michelin do seu restaurante na Toscana, o Giglio, fosse retirada.
Sessenta anos separam Sartre dos Giglio boys. A Academia Sueca não retirou o prêmio. O guia Michelin disse que não cabia ao restaurante a decisão de perder ou manter a sua estrela.
O motivo e as consequências das recusas foram diferentes. O que isso nos diz sobre identidade e reconhecimento, nem tanto.
Jorge Forbes situa a questão abordando o elogio e o insulto. Defende que são a mesma operação, marcada pela precisão do alvo.
O elogio é sempre questionável, enquanto o insulto não deixa dúvida sobre quem atinge. E é por isso que costuma ser recebido como verdadeiro. Quem insulta toca o ser do outro, diz Forbes, e o prazer de receber um nome pode ser maior que o desprazer do nome recebido. Melhor ser alguma coisa do que não ser nada.
O elogio faz o mesmo, com a vantagem de, na maioria das vezes, ser bem-vindo. Mas o elogio também fixa o elogiado num ponto e mata o objeto tanto quanto o insulto. Daí Forbes concluir que o maior dos elogios é o fúnebre, o momento em que se fixa um nome a um corpo — aqui jaz…
Sartre e os Giglio boys foram elogiados. E, ao buscar a recusa do elogio, descobriram que não havia a quem recorrer.
Quando Sartre explicou sua recusa, disse ignorar que o prêmio fosse concedido sem a anuência da outra parte, e que pensava haver tempo de impedir a sua concessão. O comunicado oficial da Academia Sueca confirmou que a recusa do laureado não modificava em nada o ato de premiação. Apenas a entrega da medalha ficaria impossibilitada de acontecer.
Sartre continuava e continua sendo o Prêmio Nobel de Literatura de 1964.
No caso do Giglio, a resposta do guia Michelin foi similar: não se pode optar por não ser reconhecido. É uma decisão que não passa pelo restaurante. A estrela ficou. Caiu mais tarde, quando os inspetores decidiram. O restaurante continua listado.
Sartre recusou o prêmio para não virar instituição. “Não é a mesma coisa se assino Jean-Paul Sartre ou se assino Jean-Paul Sartre prêmio Nobel”, disse. Para ele, quem aceita ser consagrado em vida deixa de responder pelo que faz e passa a responder pelo nome que lhe deram. O prêmio era um “aqui jaz Jean-Paul”.
Os Giglio boys disseram que muitas vezes os clientes não vinham até o restaurante por causa da cozinha deles, mas pela estrela. “Sentimo-nos um pouco despersonalizados”, disse Terigi. Com isso, perdiam “a capacidade de assumir múltiplas formas, como a banda de rock The Clash, como Rrose Sélavy, Duchamp”.
É isto uma identidade: um nome que se recebe, e recebê-lo não é um ato do recipiente. Quem recebe é o alvo. O problema de Sartre e do Giglio não tinha saída pela recusa. Não há a quem recorrer porque, do lado de quem recebe, não há ato nenhum a praticar.
Não se identificar a nada, recusar todos os nomes, não muda a equação. Sartre é aquele que recusou o Nobel. Giglio é o restaurante que, evocando The Clash — Cause London is drowning and I, I live by the river —, recusou a estrela Michelin.
Jacques Lacan disse que contestar um discurso desde dentro ainda é uma forma de sustentá-lo. No caso da identidade, não há lado de fora. O reconhecimento vem, e vem do Outro. A questão que a psicanálise coloca é o que se faz no dia seguinte, quando o nome já está posto, a guerra continua, e a cozinha abre às sete.