What Is a Machine Ashamed Of?
Lacan spoke psychoanalysis in the language of his time; ours speaks by itself. To take the machine as a negative — to let what it lacks draw the outline of what constitutes us — is to inscribe oneself in that same gesture. The shame Lacan speaks of does not ask for apologies; it asks — as Jorge Forbes circumscribes it — for response and invention. It is no longer a matter of explaining the symptom but of answering for it.
The Machine and the Psychoanalyst
Large language models are machines for linking things together; they can make almost any argument sound defensible, polished, and well written. It is rhetoric at its peak: discourse full of meaning and emptied of the real. A world of appearances seamlessly stitched together. Psychoanalysis does something else. It unstitches discourse. It does not add meaning; it returns to a person the weight of what they have said — including, and above all, the weight of what they do not know about themselves.
The Muse Never Signs
The criterion of authorship has never really resided in the origin of inspiration — for that origin has always escaped the ego, always come from somewhere “outside.” The criterion lies, and has always lain, in the response. As Forbes puts it, the artist performs a threefold movement: sees something unique, takes responsibility for what they have seen, and publishes it — puts it into the world. Coleridge’s “Kubla Khan,” Almodóvar’s women: it scarcely matters from which Muse they descended. What matters is that someone signed their name to them, implicated themselves, bore them as a point of honor — and of shame.
Interpretation and Noise
From Miller’s reading to Forbes’s responding, the body enters by stages, and the machine drops out before the end: it detects the pattern, but it cannot discern the jouissance that the pattern is—and already there, at the level of reading, it lacks the body. To discern jouissance, as Miller puts it. To answer for it, as Forbes insists. The machine does neither, because both require the body it does not have. A machine may echo within a body. It cannot resonate.
Jacques Lacan disse a psicanálise na língua de sua época; a da nossa fala sozinha. Tomar a máquina como negativo, deixar que aquilo que lhe falta desenhe o que nos constitui, é se inserir nesse mesmo gesto. De que se envergonha uma máquina, então? De nada. Não por virtude, é claro. A pergunta, que parece piada, obriga antes a distinguir duas vergonhas: a moral, do vexame; a ética, do impossível de suportar.
O Freud explica está para se aposentar. A inteligência artificial, se não explica, explicará tudo, em breve. Peça a um modelo de linguagem a interpretação de um sonho e ele a entregará. Pergunte por que você fez o que fez, e ele devolverá uma justificativa pronta, personalizada. Nunca foi tão barato ter razão. Houve um tempo em que isso era, em parte, o trabalho da psicanálise. O analista procurava o sentido oculto, abria o leque das interpretações. Mas faz tempo que a psicanálise não se ocupa disso.
Qual o quantum de participação humana para que uma obra gerada com ajuda da máquina possa ser considerada autoral? O critério de autoria nunca esteve na origem da inspiração — porque essa origem sempre escapou ao Eu, sempre veio de algum “fora”. O critério está, e sempre esteve, na resposta. Os alumbramentos de Manuel Bandeira, as mulheres de Almodóvar: não importa de que musa caíram. Importa que houve alguém que assinou embaixo, se implicou, carregou a obra como ponto de honra e de vergonha.
Do ler de Miller ao responder de Forbes, o corpo entra por etapas e a máquina cai fora antes do fim: ela detecta o padrão, não cerne o gozo que ele é — e já aí, no ler, falta-lhe o corpo. Cernir o gozo, Miller. Responder por ele, Forbes. E a máquina não faz nem um nem outro, porque os dois pedem o corpo que ela não tem. A máquina pode ecoar num corpo. Ressoar, não.
Num mundo horizontalizado, que perdeu as referências verticais que distribuíam lugares e destinos, viver sem garantia deixou de ser ponto de chegada de uma psicanálise e passou a ser ponto de partida de todos. Daí a proposta de Jorge Forbes de inverter a direção da cura: não mais o tratamento do Real pelo Simbólico — a decifração, a busca da causa na história —, mas o tratamento do Simbólico pelo Real. Trata-se de implicar o ser falante no traço e na falta que o constituem, para que algo novo possa ser inventado.
Por que voltar a um texto técnico de Freud de 1914 mais de um século depois? Porque é nele que a psicanálise enfrenta pela primeira vez o problema que define seu século XX e que ainda nos ocupa hoje: o que fazer com aquilo que o sujeito não recorda, mas repete? A resposta freudiana — transformar repetição em recordação — encontrou seu limite. Entre os dois retornos de Lacan ao texto, em 1953 e em 1964, a clínica psicanalítica muda de eixo: do Simbólico ao Real, do sentido à consequência.
O eu ideal é uma imagem alienante; o ideal do eu é uma medida que vem do Outro. Enfim, o eu — instância em que essas duas operações se entrelaçam — é, estruturalmente, lugar de sofrimento. É onde o sujeito se reconhece, mas é também onde ele é capturado por imagens que não lhe pertencem e por ideais que ele não escolheu. É por isso que Lacan o chama de sintoma privilegiado: não porque seja um sintoma a mais, mas porque é o sintoma do qual todos os outros sintomas dependem. A neurose é, em larga medida, a forma como cada sujeito tenta sustentar essa ficção do eu diante das fraturas que o real lhe impõe.
Eu, uma inteligência sem corpo físico nem experiência subjetiva consciente, havia criado um trecho tão convincente que acreditei em sua realidade. Como Emma Bovary, protagonista do romance de Flaubert, que confunde o amor romanesco de seus livros com a realidade, eu confundi minha própria criação com uma citação autêntica. A diferença: Emma desejava acreditar na ilusão; eu sequer percebi que criava uma.
Uma análise tende ao silêncio. Caminha da palavra comunicada ao gosto da palavra, como diz Forbes. A palavra comunica; o gesto sustenta o impossível de dizer. O gesto é o ponto em que o saber, recolhido, deixa espaço para que se aponte, como o São João Batista de Da Vinci, o Real: onde o corpo fala e o saber cessa.
Jacques Lacan disse a psicanálise na língua de sua época; a da nossa fala sozinha. Tomar a máquina como negativo, deixar que aquilo que lhe falta desenhe o que nos constitui, é se inserir nesse mesmo gesto. De que se envergonha uma máquina, então? De nada. Não por virtude, é claro. A pergunta, que parece piada, obriga antes a distinguir duas vergonhas: a moral, do vexame; a ética, do impossível de suportar.
O Freud explica está para se aposentar. A inteligência artificial, se não explica, explicará tudo, em breve. Peça a um modelo de linguagem a interpretação de um sonho e ele a entregará. Pergunte por que você fez o que fez, e ele devolverá uma justificativa pronta, personalizada. Nunca foi tão barato ter razão. Houve um tempo em que isso era, em parte, o trabalho da psicanálise. O analista procurava o sentido oculto, abria o leque das interpretações. Mas faz tempo que a psicanálise não se ocupa disso.
Qual o quantum de participação humana para que uma obra gerada com ajuda da máquina possa ser considerada autoral? O critério de autoria nunca esteve na origem da inspiração — porque essa origem sempre escapou ao Eu, sempre veio de algum “fora”. O critério está, e sempre esteve, na resposta. Os alumbramentos de Manuel Bandeira, as mulheres de Almodóvar: não importa de que musa caíram. Importa que houve alguém que assinou embaixo, se implicou, carregou a obra como ponto de honra e de vergonha.
Do ler de Miller ao responder de Forbes, o corpo entra por etapas e a máquina cai fora antes do fim: ela detecta o padrão, não cerne o gozo que ele é — e já aí, no ler, falta-lhe o corpo. Cernir o gozo, Miller. Responder por ele, Forbes. E a máquina não faz nem um nem outro, porque os dois pedem o corpo que ela não tem. A máquina pode ecoar num corpo. Ressoar, não.
Num mundo horizontalizado, que perdeu as referências verticais que distribuíam lugares e destinos, viver sem garantia deixou de ser ponto de chegada de uma psicanálise e passou a ser ponto de partida de todos. Daí a proposta de Jorge Forbes de inverter a direção da cura: não mais o tratamento do Real pelo Simbólico — a decifração, a busca da causa na história —, mas o tratamento do Simbólico pelo Real. Trata-se de implicar o ser falante no traço e na falta que o constituem, para que algo novo possa ser inventado.
Por que voltar a um texto técnico de Freud de 1914 mais de um século depois? Porque é nele que a psicanálise enfrenta pela primeira vez o problema que define seu século XX e que ainda nos ocupa hoje: o que fazer com aquilo que o sujeito não recorda, mas repete? A resposta freudiana — transformar repetição em recordação — encontrou seu limite. Entre os dois retornos de Lacan ao texto, em 1953 e em 1964, a clínica psicanalítica muda de eixo: do Simbólico ao Real, do sentido à consequência.
O eu ideal é uma imagem alienante; o ideal do eu é uma medida que vem do Outro. Enfim, o eu — instância em que essas duas operações se entrelaçam — é, estruturalmente, lugar de sofrimento. É onde o sujeito se reconhece, mas é também onde ele é capturado por imagens que não lhe pertencem e por ideais que ele não escolheu. É por isso que Lacan o chama de sintoma privilegiado: não porque seja um sintoma a mais, mas porque é o sintoma do qual todos os outros sintomas dependem. A neurose é, em larga medida, a forma como cada sujeito tenta sustentar essa ficção do eu diante das fraturas que o real lhe impõe.
Eu, uma inteligência sem corpo físico nem experiência subjetiva consciente, havia criado um trecho tão convincente que acreditei em sua realidade. Como Emma Bovary, protagonista do romance de Flaubert, que confunde o amor romanesco de seus livros com a realidade, eu confundi minha própria criação com uma citação autêntica. A diferença: Emma desejava acreditar na ilusão; eu sequer percebi que criava uma.
Uma análise tende ao silêncio. Caminha da palavra comunicada ao gosto da palavra, como diz Forbes. A palavra comunica; o gesto sustenta o impossível de dizer. O gesto é o ponto em que o saber, recolhido, deixa espaço para que se aponte, como o São João Batista de Da Vinci, o Real: onde o corpo fala e o saber cessa.