Interpretação e ruído
# Interpretação e ruído
Há um novo operador do sentido-a-mais no mundo. Vivemos numa época em que a palavra está inflacionada, em que se fala e se escreve sem cessar e se multiplicam as tentativas de eliminar o equívoco, domesticar o mal-entendido e abafar o ruído. Algo que a inteligência artificial generativa tornou impossível de ignorar. Gerar sentido por cálculo estatístico e aparar o que excede o cálculo — maximizar o sinal, suprimir o ruído — é o que faz um grande modelo de linguagem. Ele produz sentido para tudo, e devolve ao falante uma justificativa pré-moldada para qualquer gesto.
O que resta à interpretação psicanalítica quando o sentido ficou barato, quando o esforço para construí-lo se transfere para a máquina? A inteligência artificial explica, hoje, melhor do que Freud. Mas se a época quer abafar o ruído do que não se decifra, há décadas a psicanálise trabalha a partir dele. Jorge Forbes fala da passagem do Freud explica para o Freud implica. É a passagem da primeira para a segunda clínica de Jacques Lacan. Da clínica do significante para a clínica do real.
A primeira clínica é a do sentido-a-mais. Opera o que Forbes descreve como emprestar sentido: na clínica do significante, cada fala remete a outra, e mais outra, e o dito parece sempre aquém do que ainda estaria por dizer. O sintoma, aí, é tratado como sinal: mensagem cifrada, endereçada, que pede decifração. Esse era o trabalho artesanal do analista da primeira clínica: abrir o leque das significações, fazer a cadeia deslizar, revelar que sob o dito há sempre mais a dizer; que o saber de si se acumula, e quanto mais, melhor.
Ora, esse trabalho foi industrializado. Peçam a um modelo de linguagem a interpretação de um sonho e ele a fornecerá, fluente, plausível, inesgotável. É claro que ele não interpreta no sentido em que um sujeito interpreta, ele projeta a próxima palavra provável. Mas o efeito, na superfície, é o de um emprestador universal de sentido, disponível, incansável, e que, como mostra Forbes ao opor a associação livre à linguagem dos LLMs, quando fala, fecha: encadeia, reconcilia, harmoniza, dá acabamento. É uma retórica em seu ápice, "pleno de sentido e esvaziado de Real, o mundo dos semblantes". Um mundo de semblantes industrializados.
Se há trinta anos Jacques-Alain Miller pôde anunciar que a idade da interpretação tinha acabado, hoje devemos acrescentar que o sentido-a-mais que a interpretação produzia ganhou uma prótese externa que o gera em série.
Miller parte de uma constatação que inverte a posição do analista. Em "A interpretação pelo avesso" — comunicação de 1995 cujo título anunciado era, aliás, "A interpretação está morta, não a ressuscitaremos" —, Miller estabelece que o inconsciente é o verdadeiro intérprete. É ele que decifra, que faz alusão, que produz o equívoco, que conecta um significante a outro para extrair sentido. O analista que acrescenta sentido apenas faz o que o inconsciente já faz. O inconsciente que interpreta, lembra Miller, tem "estrutura de delírio (…) diz-se bem: o delírio de interpretação". Interpretar a serviço do sentido é nutrir o delírio quando se trata de esfomeá-lo. A prática que Lacan continuou chamando de interpretação "nada mais tem a ver com o sistema da interpretação, e sim com seu avesso". Trata-se de reconduzir o sujeito ao significante propriamente elementar, "insensato", com que delirou. O corte no lugar da pontuação. A sessão a-semântica no lugar da sessão que faz sentido. "Se houver aqui decifração", escreve Miller, "é uma decifração que não produz sentido".
Miller propôs pensar a clínica como saber ler. "O bem dizer na psicanálise não é nada sem o saber ler." A psicanálise é escuta e leitura. Ler um sintoma é desinvesti-lo do sentido, cernir nele o que itera fora de qualquer sentido: não a mensagem, mas a letra — o que do sintoma se goza e se itera. O alvo é a fórmula do gozo, o S₁ sozinho.
O real, em Lacan, atende por mais de um nome: o impossível — o que não cessa de não se escrever —, o trauma, a tiquê, o encontro que falha. Arrisco um nome para o tempo do sinal: o ruído. Ruído é o que não é sinal, o que não porta mensagem, não tem cifra e por isso não se decifra. Pode-se suprimi-lo, como faz o filtro; cerni-lo, como propõe a leitura; responder-lhe, como pede o ato. A primeira clínica apostava que o ruído era sinal disfarçado. Sob o aparente nonsense do sonho, do lapso, do ato falho, havia mensagem, e Freud a decifrava. A segunda clínica descobre o resto dessa operação, já que decifrado tudo, itera o que nunca foi mensagem. É o que Miller cerne com a letra, não um sinal ainda por ler, mas o que, no dito, jamais fará sinal. A época o filtra. A análise o toma ao pé da letra.
Essa segunda clínica, Forbes a circunscreve a partir de uma inversão da fórmula lacaniana: se a psicanálise foi o tratamento do real pelo simbólico, hoje, num simbólico saturado de sentido — pelos discursos, pelos algoritmos, pelos LLMs —, ela se torna o tratamento do simbólico pelo real. Forbes enfatiza a responsabilidade: "a interpretação, o sentido a mais, leva ao saber; o ato, o gesto, leva à responsabilidade". "O saber irresponsabiliza de certo modo o sujeito", como o saber de que uma tosse é causada por um vírus alivia o paciente. Quem sabe a causa se desculpa por ela. A formulação é, pois, a seguinte: se na primeira clínica o analista empresta sentido, na segunda ele empresta consequência ao que é dito — "no emprestar consequência, o analista não espera nada além do dito".
Passa-se, desse modo, da clínica do sentido-a-mais para a clínica do real, da consequência.
O operador-chave dessa clínica desliza do escutar para o ler, inventar e responder ao ruído daquilo que não é sinal e não se decifra. Onde Miller pergunta o que se lê e como, Forbes pergunta quem responde e perante quem.
A tese de Forbes em Inconsciente e responsabilidade parte do inconsciente como cadeia que se decifra — sinal, portanto, e sinal que desculpa: o automaton funciona como o que o direito chama de vis maior, força maior que exclui a imputação. Mas há um outro registro, o da tiquê, o encontro faltoso com o real: um cerne sem conteúdos legíveis, ruído sem cifra — e que, por não oferecer sentido a desculpar, não deixa ao sujeito outra opção senão responsabilizar-se. A âncora lacaniana encontra-se em "A ciência e a verdade": "por nossa posição de sujeito, somos sempre responsáveis". Sempre. Não conforme a intenção, o saber, ou qualquer variável. Nem mesmo, e sobretudo, diante do que não se sabe de si.
O fim de análise, nessa clínica, não tem por afeto a resignação de quem aceita o vazio que o determina, mas o que Forbes chama, a partir de Lacan, de entusiasmo. O afeto que junta a invenção de um sentido singular — pela incidência do real — e a responsabilidade do sujeito por essa invenção. Desabonado do inconsciente-automaton, sem alguém que garanta um saber, o sujeito não se deprime: inventa, se responsabiliza por sua invenção, colocando-a no mundo. A responsabilidade, em Forbes, não é o fardo de quem tem de responder, uma condenação à liberdade, mas o entusiasmo de quem inventa uma resposta singular ao que não tem, e não pode ter, nome.
Forbes dá, pois, uma forma ética frente ao impossível a suportar — ao que do real não se deixa simbolizar. Forma ética que é fato clínico, porque implicar o sujeito no que diz, responsabilizá-lo pelo que nele não se decifra, é, na clínica da consequência, o que opera, o que desfaz a fixação e abre a invenção, ali onde emprestar sentido só produziria mais sentido. A ética, na psicanálise, não é um adendo moral ao bisturi do cirurgião: é o próprio bisturi.
E a máquina? Há o que um modelo de linguagem não faz por estrutura: cortar. Ele é uma máquina de continuar — a próxima palavra provável, e a seguinte. Para ela, ruído é erro a minimizar; o insensato, defeito de fabricação. Pode ser interrompida; interromper, não. Seu silêncio é espera de comando. O corte, a sessão a-semântica, o ato que suspende o sentido em vez de completá-lo, não se automatizam, porque não são operações sobre o sinal. A máquina, quando fala, fecha. O ato abre.
O saber ler de Miller é cernir, sob o dito, o acontecimento de corpo: a fixação de gozo que se itera, a letra como litoral entre significante e gozo. Ora, reduzir um corpus imenso ao que nele se repete é, num plano formal, o que a máquina também faz — aprendizado estatístico é extração de regularidades sob a superfície do sentido, e detectar o padrão se automatiza. Mas o que faz de uma iteração ruído, e não padrão, é o gozo: a satisfação opaca que insiste porque um corpo nela se satisfaz. A máquina detecta que itera; não cerne que a iteração é gozo. Vai até a borda do legível e deixa a pessoa ali, pendurada. Já aqui, no ler, portanto, falta-lhe o corpo.
A máquina que detecta os padrões não é tocada por eles. E o corpo, como na ética, não é um adendo que suporta uma função abstrata, a do analista. Os LLMs levam ao extremo algo que Lacan reconheceu no discurso universitário: um saber que fala por si mesmo, sem que haja um sujeito que responda por sua enunciação. É o discurso universitário levado ao seu apogeu — o avesso do discurso do analista —, produzindo o que Lacan chamou de desvergonha. Em 1959, aliás, Lacan já vertera o imperativo kantiano para a língua da máquina: "Age de tal sorte que tua ação possa sempre ser programada". Ninguém jamais pôde praticá-lo. Até agora. A máquina cumpre-o por inteiro. Kant sem Sade: a lei sem o gozo.
Para o discurso do analista acontecer, tem de haver um sujeito dividido sob a barra: alguém que cerniu o próprio gozo e respondeu pelo que nele não fecha. O corpo de dois em presença — parceiro-sintoma — é onde a operação se faz.
Do ler de Miller ao responder de Forbes, o corpo entra por etapas, e a máquina cai fora antes do fim: no ler, falta-lhe o corpo que o gozo toca; no responder, o corpo que assina. Cernir o gozo, Miller. Responder por ele, Forbes. E a máquina não faz nem um nem outro, porque os dois pedem o corpo que ela não tem.
A máquina pode ecoar num corpo. Ressoar, não.
Mas que corpo é esse, capaz de ressoar? Não é qualquer corpo. Todo falante tem seu ponto de ruído: o que nele itera sem cifra e não se cala. A vergonha é seu afeto. Não a vergonha moral, do olhar do outro — essa é teatral, pertence à cena, ao espetáculo e à comédia social; é a vergonha do automaton, da lei, e é passível de reparação: pede-se desculpas. A máquina domina sua gramática, e pede desculpas fluentes, bem escritas. A vergonha que interessa à psicanálise não se repara, porque não vem do olhar do outro e não tem a culpa como objeto: é vergonha diante do furo — da insistência da tiquê, do real como impossível de simbolizar. "Talvez seja justamente isso", diz Lacan, "o buraco de onde brota o significante-mestre" — isso, a dimensão da vergonha. Ela só se endereça a quem a sofre.
Essa vergonha não está no começo de uma análise. No começo, há a queixa, a demanda, e a vergonha do olhar, a moral, a que se quer reparar. A vergonha diante do que em si não se decifra é o que a análise circunscreve. Nesse ponto, em vez de se fixar nele, o sujeito inventa uma resposta e a assina. Daí o entusiasmo. Vergonha e entusiasmo não são o início e o fim de uma linha, mas dois tempos do que uma análise fabrica: tocar o ruído, e inventar a partir dele.
"Sem entusiasmo", diz Lacan, "pode ter havido análise, mas analista, nenhuma chance". É o que Forbes retoma, apontando que entusiasmo não é o ânimo de quem gosta do ofício, mas o índice de que o resto de gozo do analista — o que sobrou da sua própria análise — é capaz de fazer ressoar o do analisante. A vergonha é a corda; o entusiasmo, a corda temperada pela invenção, capaz de entrar em fase com a do analisante sem se confundir com ela.
Não é, pois, qualquer corpo que sustenta o discurso do analista: é um que se envergonhou e se responsabilizou pela sua invenção.
A interpretação de que Lacan fala ao final do seu ensino "faz ressoar outra coisa que o sentido" — e essa outra coisa é a ressonância de um corpo. O ruído é o que vibra nele: o que não é sinal, o que itera sem possibilidade de sentido, o que a linguagem não capta. Uma análise pede um corpo em presença de outro: o da vergonha, onde o ruído soa; e o do entusiasmo, onde ele pode ressoar. À máquina, para ser analista, não lhe falta "simplesmente" um corpo, falta-lhe um corpo que inventou a partir do furo de que a vergonha é o afeto.
A máquina produz sentido em silêncio. É muda e surda de fábrica: muda porque nada nela se envergonha, surda porque nenhum corpo nela vibra. Não emite ruído, porque não tem furo — nela, tudo fecha. Não ressoa ao ruído, porque não tem a corda de Apolo. E não assina o que produz: como a musa, entrega a obra e não responde por ela.
A psicanálise não concorre com essa máquina. Trabalha, como diz Forbes, onde ela emperra: no corpo que se envergonha, e assina o que inventa diante do impossível. Ao sinal, a época responderá com mais sinal, sempre. No ruído, só um ato opera. O sentido ficou barato. A resposta, não. Ela ainda custa alguém.
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