Os profissionais da desotimização
Não demorará muito para vermos uma explosão de profissionais da desotimização. Em uma era de produção em escala industrial cada vez mais ampla de objetos bem acabados, a saturação da simetria parece estar logo ali. Especialistas hão de surgir.
Pululam espertalhões que não nos deixam enganar. Encantados com o poder da escrita depurada, parecem estar experimentando uma ponta da fascinação que a arte de Hemingway exerce sobre os mortais. Mas, nessas mãos afobadas, a fascinação serve para outro uso, o avesso da literatura: dar a ver as suas próprias imagens. Escrevem para os olhos, à maneira das redes sociais. Discurso esvaziado de Real, retórica.
Alguns, ainda mais espertalhões, perceberão em breve que outros notam o truque e, ciosos de si, buscarão quem os socorra do vexame da simetria. Haverá, então, cursos como os que ensinam hoje as boas maneiras do old money.
Jorge Luis Borges, convenhamos, não era dessa classe de espertalhões.
Em uma conversa com Bioy Casares sobre o filme Invasión, Borges recebeu do amigo uma observação curiosa: um dos principais defeitos estava nas falas do roteiro, “demasiado concluídas, corretas e sentenciosas”, e seria necessário corrigi-las de um modo contrário ao habitual, “cortando e estropeando as frases que saíram boas demais”.
Borges:
Parece que Shakespeare escrevia dois textos para cada peça: um para dar-se o gosto de escritor e outro para a representação, o acting text. Acredita-se que de Macbeth sobreviva apenas o acting text e, das demais peças, o primeiro, o literário. Por isso, Macbeth é a melhor de suas peças.
Borges, Shakespeare e os espertalhões diante do mesmo dilema. Jacques Lacan chamou de “gozo do idiota” o gozo singular, fechado no circuito de cada um. Narciso na frente da tela, do espelho, do milharal. Ninguém escapa da sua idiotice, é claro, mas alguns elevam essa condição a destino manifesto.
Estropear, então: ferramenta dos profissionais do futuro. O coach da desotimização vai descobrir o psicanalista em seu ofício? O espertalhão arrivista vai visitar o poeta, quase sempre muito pobre?
Lacan, retomando Freud, fala das profissões do impossível. São aquelas que trabalham com o limite do saber e da verdade. Profissões que não acreditam que uma decisão um dia poderá ser substituída por uma dedução: haverá sempre risco a ser assumido, pelo analista, pelo artista, pelo governante, pelo educador — para além do saber que os dados colocam à disposição.
É o que os diálogos de Borges e Casares nos dizem, nas entrelinhas. Diálogo ruim é dizer demais, é tentar excluir o leitor/espectador do seu lugar na obra. É tentar preencher o que não cansa de se abrir. Fechar a porta ao mundo. Dar sentido e mais sentido para não enfrentar o que não comporta sentido algum. Desvergonha.
Mas… — dirá outra classe de espertalhão — tabularão em breve também as exceções, o estropeio! Eis um trabalho que as máquinas já arregaçam as mangas para fazer, sem custo adicional. Tornam-se, a um prompt, máquinas de estropear. É só pedir e, voilà, estropeação em escala.
O GPT pede a palavra:
Sim — mas é justamente aí que a tese deveria virar. Algo como:
A máquina pode estropear uma frase. Não pode decidir por que esta frase, neste ponto, deve ser estropeada — nem responder pelo que o corte produz.
Muy bien. Não é o fim da aventura humana na Terra. Ainda resta quem responda diante do impossível.
A psicanálise continuará estropeando as identidades, abrindo, em meio ao excesso de sentido, o ponto de vergonha em que cada um tropeça na própria idiotice. Não para deixá-la para trás, mas para inventar com ela outra maneira de repetir — na novidade, como diz Jorge Forbes.
Borges:
A infância passou, caducaram os tigres e sua paixão, mas eles prosseguem em meus sonhos. [...] Costumo pensar, então: Isto é um sonho, pura invenção de minha vontade, e, já que tenho um poder ilimitado, vou causar um tigre. Oh, incompetência! Nunca meus sonhos sabem engendrar a almejada fera. O tigre aparece, sim, mas dissecado ou fraco, ou com impuras variações de forma, ou de um tamanho inadmissível, ou muito fugaz, ou quase cão ou pássaro.
Terrível simetria.
Tyger, tyger, jaguatirica.